Reciclando mais município gasta menos com o transporte do lixo para Dourados

Quando, em 2006, o então prefeito de primeiro mandato Maurílio Ferreira Azambuja deu todo apoio necessário para o surgimento da Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis de Maracaju, o que ele não poderia imaginar é que, mais de 10 anos depois, já em seu terceiro mandato à frente do Poder Executivo Municipal, veria a entidade se tornando um exemplo de organização não governamental bem sucedida.

Denominada Recicla Maracaju, a Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis exerce papel preponderante no processo que tem como objetivo diminuir cada vez mais o lixo transportado para o município de Dourados e, consequentemente, aumentar o volume de produtos descartados pela população que vão para o processo de reaproveitamento através do programa de coleta seletiva do lixo estabelecido pela administração municipal.

Atualmente, o Projeto Recicla Maracaju é gerido pelo sistema de cooperativa e todas as decisões são tomadas por maioria de votos obtidos em votação entre os sete pais e mães de famílias – quatro homens e três mulheres – responsáveis pela separação de todo o lixo reciclável recolhido pelos caminhões da limpeza pública municipal.

A Prefeitura Municipal presta assessoramento aos associados do Recicla Maracaju através da primeira-dama, Leila Gonçalves Azambuja, uma apaixonada pelo projeto, da bióloga Andréa da Silva Batista, que atua muito forte no sentido da conscientização ambiental, e da servidora Gleci Martins Placência, que trabalha a parte administrativa da Associação.

Falando em nome do “trio”, a primeira-dama Leila relatou que, quando o prefeito Maurílio Azambuja criou o Programa Recicla Maracaju, na sua primeira gestão, em 2006, era para o projeto ser gerido pelas famílias da melhor maneira possível, motivo pelo que a Prefeitura cedeu o barracão (alugado) e doou o terreno ao lado que até hoje pertence à Associação.

O problema, segundo Leila, é que a visão de gestão de cada família que integrava o projeto naquela época era totalmente desconexa da realidade atual, completamente diferente da mentalidade administrativa que foi implantada atualmente e que está dando resultados altamente positivos.

Enquanto nos primeiros anos era tudo à base do “cada um por si e Deus por todos”, hoje a Associação trabalha de forma humanizada.

“Hoje, a gestão humanizada é mais favorável às famílias que aqui trabalham e as pessoas envolvidas estão percebendo que, com o uso de tecnologia e o aumento da competitividade, é preciso se capacitar, é necessário estudar e se socializar para que possam desempenhar com eficiência a gestão do programa que é uma espécie de ‘negócio próprio’ de cada uma das famílias aqui envolvidas” relata Leila Azambuja.

Porém, quem pensa que a Prefeitura está de “boazinha” na parceria com o Programa Recicla Maracaju, está redondamente enganado. A municipalidade também tem seus interesses diretos e, por meio do “trio” que assessora os recicladores, admite que esses interesses vêm sendo plenamente atendidos pelo trabalho desenvolvido pelos associados da organização não governamental.

Leila esclarece que, quando da sua criação do programa em 2006, a intenção inicial da administração municipal era a de dar ocupação para uma parcela da sociedade que vivia marginalizada e sobrevivia do recolhimento de produtos recicláveis na cidade. Com o passar do tempo, contudo, e o lixo urbano se avolumando cada vez mais, houve a necessidade de associar questões ambientais à necessidade de diminuição dos custos do processamento do lixo urbano.

Hoje, os detritos não recicláveis não são mais armazenados em Maracaju. Há uma estação de transbordo de onde saem vários caminhões, todos os dias, com destino à cidade de Dourados, onde funciona um sistema de aterro sanitário regional. Diariamente, segundo dados da municipalidade, são produzidas entre 40 e 50 toneladas de lixo no município. “Quanto mais reciclarmos, menos lixo nós teremos de transportar para Dourados. A administração municipal paga uma empresa terceirizada para levar o material inservível de Maracaju a Dourados” explica a primeira-dama.

Com o programa de coleta seletiva de lixo urbano implantado em Maracaju há quase três anos, a administração municipal trabalha a questão da conscientização popular, apelando à sociedade para que separe tudo o que é possível ser reciclado, pois, quanto mais se recicla, menos se gasta com o transporte do lixo que o município produz.

“Estamos iniciando um trabalho que consistirá na visita a todas as casas da cidade e a todos os estabelecimentos de ensino do município para levar informação sobre a importância de se separar o lixo reciclável do lixo inservível. Com isso, procuramos diminuir ainda mais o volume de detritos a ser transportado para fora e, consequentemente, aumentaremos a quantidade produtos de recicláveis, melhorando ainda mais as condições de vida das famílias que atuam no projeto Recicla Maracaju” cita a bióloga Andréa, lembrando o papel importante que têm os recicladores no âmbito da preservação ambiental.

Nesse ponto, a primeira-dama volta a enaltecer o papel da sociedade maracajuense que tem dado exemplo uma vez que o processo de coleta seletiva instituído em Maracaju já é visto como um dos mais eficazes e sedimentados do interior do Estado. “A participação da sociedade tem sido primordial nesse processo. A população tem sido muito eficaz no cumprimento do seu papel na concretização do programa” diz a primeira-dama.

Leila cita casos de produtores rurais que têm vindo a Maracaju exclusivamente trazer produtos recicláveis para a Associação. O mesmo ocorre com comerciantes que separam o lixo de forma ecológica e economicamente correta. “Aqui só recebemos apoio. As pessoas que visitam o projeto, os colaboradores, os parceiros, os comerciantes, os produtores rurais têm vindo ao projeto dar seu apoio irrestrito e têm sido importantíssimos para o seu sucesso do programa” diz.

“Nós somos muito gratos à sociedade maracajuense pelo apoio dispensado e não podemos deixar de registrar, de forma alguma, o engajamento da população de Maracaju que, hoje, separa o lixo doméstico, permitindo mais agilidade no processo de coleta e posterior separação aqui no Recicla Maracaju” enfatiza.

REAPROVEITAMENTO – “Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. A frase creditada por alguns ao pensador Antoine Lavoisier, por outros a Isaac Newton (neste caso, sem a citação de que ‘nada se cria’), está mais em voga do que nunca no projeto Recicla Maracaju, onde, além dos recicladores fazerem o serviço de separação dos materiais recicláveis, inicia-se um processo de reaproveitamento de alguns materiais na produção de móveis e utensílios domésticos.

No projeto já existe esse trabalho de reaproveitamento de materiais aparentemente inservíveis e que estão sendo transformados em utensílios de grande utilidade para o dia-a-dia dos trabalhadores que integram o Recicla. São os casos das mesas do futuro refeitório dos trabalhadores do projeto que foram feitas com as bobinas doadas por revendedores de cordas. Exemplos também estão nos banheiros masculino e feminino onde as pias lavatórias, a decoração e vários outros petrechos utilizados pelas famílias recicladoras foram criados a partir de pneus, tambores e de outros materiais recicláveis.

“Todo dia a gente faz uma ‘artezinha’ aqui. Mas, é tudo com muito carinho e são para eles mesmos. É para uso deles. Eles estão gostando, mas não estão tendo tempo suficiente para fabricarem as peças. A nossa intenção é fazer com que eles aprendam a fabricar, a ‘artesanar’ e a comercializar também esses produtos. Nossa intenção é que eles consigam ‘mobiliar’ a própria casa com utensílios concebidos a partir de produtos recicláveis” comenta a empolgada primeira-dama.

RECICLA, HOJE – A bem da verdade se pode dizer que, aprendendo diariamente lições de cidadania e assimilando cada vez mais noções de preservação ambiental, os pais e mães de famílias integrantes do Recicla Maracaju têm hoje uma fonte de renda que garante a subsistência dos que vivem sob suas expensas. “Esses pais de famílias sobrevivem do material reciclável que recebem aqui no barracão e que separam com muito trabalho e dedicação. Isso faz com que suas famílias tenham uma vida melhor e vivam, por consequência, com mais dignidade” diz Andréa.

Para a prefeitura de Maracaju, o programa Recicla tem sido um grande laboratório de aprendizagem, um grande legado de cidadania que pais e mães de famílias deixam para o município. “Temos aprendido muito com os trabalhadores da reciclagem. Essas famílias que atuam aqui nos ensinam todos os dias a dar mais valor às pequenas coisas e a transformar coisas inúteis, que aqui são armazenadas, em coisas extremamente úteis” afirma Leila.

Sobre a sede da Associação que passou por diversas melhorias, como limpeza, pintura, criação de espaços específicos para refeitório, sala de TV e sala de refeição, entre outros, a primeira-dama se diz suspeita em comentar a verdadeira metamorfose que ali foi promovida. “Eu sou até suspeita em falar, porque aqui no projeto não queremos que se destaque apenas a beleza física, mas, em especial a beleza humana que temos aqui dentro” diz.

Leila afirma que na, atualidade, todos os {servidores públicos municipais} que passam pelo projeto Recicla Maracaju falam que não querem voltar para o local de origem, mas, querem ficar ali, somando com as famílias recicladoras. “Aqui tem o calor humano, tem sempre uma história agradável para a gente ouvir. Isso é gratificante. Essa sempre foi a intenção da administração municipal: que as pessoas, ao passarem pela  lombada eletrônica na Avenida Marechal Deodoro, olhassem para seu lado direito e percebessem que as pessoas que ali estão trabalhando são seres humanos agradáveis, amorosos e que fazem o bem para toda a população maracajuense”.

DECISÃO POR MAIORIA – Atualmente trabalha na Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis de Maracaju um total de sete pessoas, sendo quatro homens e três mulheres.

Questionada sobre a possibilidade de esse número aumentar, a primeira-dama explicou que a decisão é exclusiva dos integrantes da Associação. “São eles mesmos que decidem. O projeto Recicla Maracaju é uma associação sem fins lucrativos e se eles acharem que precisam de mais pessoas para fazer esse trabalho de separação e de gerência de todo esse mecanismo, eles decidirão por meio de assembleia” explicou.

Leila esclareceu, finalizando, que tudo que a administração municipal faz no projeto depende de permissão da maioria dos associados. “Se eles disserem não, está decidido: não se faz. Não decidimos e muito menos impomos condições aqui no projeto. Nós estamos a serviço deles e eles atuam em favor da sociedade fazendo um trabalho excepcional no processo de reaproveitamento de muita coisa que até bem pouco tempo atrás era jogada no lixo” conclui.

OS RECICLADORES

Eles são os responsáveis pelo sucesso do “Recicla Maracaju”

Eles são os responsáveis pela separação e enfardamento, todos os meses, de algumas dezenas de toneladas de materiais recicláveis recolhidos no lixo de Maracaju que são comercializados em Campo Grande. A cada 37 ou 38 fardos se tem uma carga completa de papel, plástico, isopor, latinhas de alumínio, latas, latões, metais variados, vidro e outros tantos materiais que vão para o processo de reciclagem tão importante nesse momento em que o planeta discute ações de sustentabilidade.

Cleuza Conceição, moradora da Vila Prateada, casada e mãe de seis filhos é a presidente da Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis – o Recicla Maracaju. Ela sintetiza o que o projeto significa para cada um dos sete recicladores filiados à Associação: “Aqui é a nossa nova vida. Tudo o que não tínhamos nos foi dado a partir da oportunidade de trabalhar com materiais recicláveis. Aqui temos refeição de qualidade. Somos tratados com dignidade e ganhamos um salário que nos permite dar uma vida digna aos nossos familiares. Só temos a agradecer a primeira-dama Leila, a sua equipe e à administração do prefeito Dr. Maurílio” afirma.

Além da presidente, atuam diariamente na separação de materiais recicláveis Aroldo da Silva Cardoso, solteiro, morador da Vila Juquita, Maria Caroline Machado de Souza, que mora com a mãe no Bairro Ilha Bela II; Gelson Machado Braga, casado, pai de um filho e morador da Vila Juquita, e Alisson Rocha, solteiro, morador do Bairro Cambarai. Completam o hepteto, a recicladora Luzineide, que não se encontrava no projeto quando a visita da reportagem, e um sétimo reciclador que está com problemas jurídicos sendo solucionados para poder voltar à ativa.

Jota Menon


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