Maracaju de 5.000 a 50.000 habitantes, na visão de Henrique Holandês

Gerrit Hendrik Bouwman, ou simplesmente Henrique Holandês, não lembra muita coisa de sua terra natal, a Holanda, de onde saiu com destino ao Brasil aos seis anos de idade. Mas, de Maracaju, de quase 50 anos atrás, ele se lembra como ninguém.

Do distrito de Bergentheim, no município de Hardenberg no estado de Overijsel, nos Países Baixos (Holanda), onde nasceu, ele tem na memória alguns detalhes da casa em que morou até migrar para o Brasil. “Eu me lembro muito pouco do lugar que nasci. Somente a casa em que morávamos que era uma casa acoplada de um galpão que abrigava o gado leiteiro, feno, batata, beterraba doce, trigo e demais produtos que meu pai produzia na lavoura” relata ele ao manter contato com a reportagem do “Maracaju Hoje”.

Seu Henrique Holandês, por outro lado, lembra “como se fosse hoje” da Maracaju do ano de 1971, portanto, a cidadezinha no ainda Mato Grosso uno de quase meio século atrás. “Maracaju era uma cidade de mais ou menos 5.000 habitantes e ainda tinha tudo para fazer para que pudesse se tornar uma cidade habitável” relata.

E Henrique Holandês complementa: “As estradas eram terra pura, sem asfalto. A luz, precária, fornecida por uma pequena usina {a denominada Usina Velha} com capacidade de gerar 800 Kva de eletricidade; telefone, apenas um posto para atender o público e o transporte feito pela antiga empresa ferroviária Noroeste do Brasil”.

Tudo era muito difícil. Conseguir um telefonema para outras regiões do Brasil, uma dificuldade. Telefonemas para o exterior só em Campo Grande e, conseguir, era quase um milagre. “As telefonistas recebiam os recados que vinham de fora e mandavam um taxi nos entregar” relata.

 

Foi nesse cenário que, em companhia da noiva, Elizabeth, enfermeira padrão, formada pela Universidade Federal do Paraná, com quem se casaria um ano depois, Henrique e outros holandeses, hoje bastante conhecidos na cidade e no Estado, resolveram enfrentar o desafio de abrir áreas para a agricultura na região que encantara seu pai Berend Willem Bouwman que viera primeiro e vira uma espécie de “Nova Holanda” na região dos Campos de Vacaria.

“Quando meu pai voltou a Palmeira das Missões, no Rio Grande do Sul, retornando de Maracaju e região, era só entusiasmo. Ele nos dizia que a região se parecia com a Holanda, tudo plano. Podia se olhar ao longe, um paraíso. E nos disse que se quiséssemos continuar na lavoura, deveríamos conhecer esse paraíso” relata Gerrit que chegou na região para ficar em companhia de Ake Bernhard van der Vine. Juntos, eles abriram inúmeras áreas agricultáveis nas fazendas Forquilha e Boa Vista, entre outras.

Seu pai, acompanhado de sua mãe Joahanna Hendrix te Rieststap, de seu irmão Quilherme, de outros familiares e de Krijn Wielemaker só chegariam de mudança a Maracaju em 1973, pouco mais de um ano depois de Henrique e Ake.

Krijn havia acompanhado Henrique Holandês e seu irmão Quilherme, na primeira viagem que empreendera para conhecer o paraíso descrito por seu pai. Nesse contato inicial com o gigante Mato Grosso indiviso fecharam os primeiros contratos de arrendamento com os senhores Arlindo Olegário de Lima e Isabel Ferreira de Lima.

Da data de sua chegada a Maracaju, em outubro de 1971, aos dias de hoje muita coisa mudou. Henrique Holandês viu o ex-prefeito Luiz Gonzaga Prata Braga asfaltar as primeiras ruas e avenidas do centro de Maracaju, abrir loteamentos populares e a construir o Estádio Loucão e o Ginásio Louquinho.

Ele ajudou a fundar a Coopemara – Cooperativa Agropecuária de Maracaju – que teve como primeiro presidente o ex-deputado estadual Ary Rigo e ele mesmo como um dos membros de seu Conselho. Integrou o Rotary Club por 32 anos e foi um entusiasta da fundação da Cooperju – Cooperativa Habitacional de Maracaju – que proporcionou a construção do Bairro BNH, até hoje um dos mais valorizados do município.

Gerrit Hendrix integrou o grupo de rotarianos que colocou no ar a Rádio Cidade Maracaju em 21 de agosto de 1978. Mas não pode ser um dos sócios porque era holandês e àquela época para ser sócio de qualquer meio de comunicação era necessário ser brasileiro nato. Mas, após se naturalizar brasileiro, em 1983, exerceu diversas funções relevantes como presidente do Sindicato Rural de Maracaju e Associação Comercial, Agropastoril e Industrial de Maracaju – a Acapim – que depois passou a denominar-se Associação Empresarial de Maracaju, a Assema.

Com os relatos de Henrique Holandês seria possível escrever um livro contando uma boa parte da história dos últimos 50 anos de Maracaju, período em que o município saltou dos 5.000 para os 50.000 habitantes e se tornou o maior produtor de soja e milho do Estado e um dos maiores do país.

E os holandeses, com a sua tecnologia de plantio direto sobre palhada e consorciamento agricultura e pecuária têm uma parcela significativa de contribuição. “Posso dizer que temos muita história e que colaboramos com o desenvolvimento de Maracaju e região e que nosso dever foi cumprido no sentido de dar uma vida melhor para nossos filhos e netos e a todas as famílias de Maracaju. Amo esta terra e o povo de Maracaju” enfatiza Henrique.

E, como o espaço é pequeno, resta-nos do “Maracaju Hoje”, em nome de toda a sociedade maracajuense, homenagear, através de Gerrit Hendrix Mouwman, o Henrique Holandês, a toda a colônia holandesa agradecendo-a por ter contribuído de forma generosa com a consolidação de Maracaju como um dos polos de desenvolvimento de nosso Estado.

“Nós somos gratos a todas as famílias que vieram da Holanda ajudar no desenvolvimento de Maracaju!”.

“We zijn alle families dankbaar die uit Nederland kwamen om te helpen bij de ontwikkeling van Maracaju!”.

Jota Menon e Dafne da Veiga