Capes suspende concessão de bolsas de pós-graduação

Uma semana após anunciar o contingenciamento de 30% das verbas das universidades federais , o governo de Jair Bolsonaro abalou novamente a comunidade acadêmica esta quarta-feira, suspendendo a concessão de bolsas de mestrado e doutorado. A medida, tomada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), não afeta os estudantes já contemplados com o benefício.

Hoje, alunos de mestrado ganham bolsa de R$ 1,5 mil, e os de doutorado, R$ 2,2 mil. Em nota, a Capes anunciou que o sistema de concessão do benefício foi fechado em maio — ou seja, que não estariam mais “à disposição das instituições”.

O órgão não informou quantas das bolsas que classificou como “ociosas” foram suspensas, nem quantas universidades foram atingidas. Todas as bolsas que não estavam sendo utilizadas em abril passado foram “recolhidas”.

Os reitores foram comunicados ontem sobre o corte promovido pela Capes e ainda calculavam como a medida atingiu suas instituições. Houve protestos contra a suspensão das bolsas em Niterói, organizado por estudantes da UFF , e em São Paulo, onde o movimento foi chamado de Marcha pela Ciência.

Na Coppe-UFRJ, o maior centro de ensino e pesquisa de engenharia do país, 35 bolsas foram perdidas em apenas dois dos 11 programas.

Na Universidade Federal Fluminense (UFF), foram recolhidas sete bolsas de mestrado, 24 de doutorado e duas de pós-graduação.

— O Brasil tem um modelo de produção do conhecimento intimamente ligado à pós-graduação. Os bolsistas são alunos formados e motores da produção científica — disse o reitor da UFF, Antonio Claudio Nóbrega.

Responsável pelos programas de pós-graduação, a Capes perdeu R$ 819,3 milhões do total de R$ 4,1 bilhões de sua verba não obrigatória, segundo medida anunciada nesta semana. Para se adequar ao corte, informou que congelaria todas as “bolsas ociosas” — ou seja, as que, momentaneamente, não estivessem ocupadas —, o que fez ontem. Também foram suspensas novas bolsas do programa Idioma sem Fronteiras.

O próximo passo, segundo a fundação, é reduzir gradativamente, ao longo de dez anos, novas bolsas para cursos que mantêm nota 3, a mínima para permanecer nos programas da agência. Hoje, há 211 programas nessa situação.

Para Luiz Davidovich , presidente da Academia Brasileira de Ciências, o governo federal erra ao justificar o contingenciamento no ensino superior apontando eventuais falhas no ensino básico .

— Criar este binômio não faz sentido. Precisamos formar professores na pós-graduação para que eles possam ensinar na rede básica. Falta a concepção de que todas as etapas devem estar conectadas — explica. — A suspensão a novas bolsas vai na contramão do que está ocorrendo no resto do mundo, porque reduz o fluxo de alunos para a pós-graduação e, assim, teremos menos pessoas para trabalhar em pesquisa e inovação.

Davidovich ressalta que, a cada real investido em pesquisa no Embrapa, o retorno é 12 vezes maior.

— Trata-se de uma riqueza gerada por cientistas brasileiros, que fizeram pós-graduação, e agora contribuem para explorar setores vitais para o desenvolvimento nacional, como explorar a biodiversidade e energias renováveis.

O Globo